Um dia alguém me disse que eu era uma pessoa mestre em recomeços.  Que na vida mesmo quando a tempestade era forte, eu respirava e inventava um novo jeito de continuar, de me reconstruir.  Eu achei interessante mas não pensei muito no assunto. Essa semana, porém, me lembrei disso e comecei a refletir a respeito.

Muita gente acha que para recomeçar é preciso passar por um baque grande, que só quando a vida nos dá um chacoalhão é que surge a necessidade de se alterar rotas, mudar de planos, começar de novo. É claro que nessas situações há maiores chances disso acontecer, afinal nos vemos diante de uma circunstância que exige mudança. Mas não é só  nesses casos.

Quem tem o hábito de buscar o autoconhecimento,  de se perceber sempre, pode se ver diante da necessidade de fazer novos começos mesmo que não seja em situações-limite. Pode ser apenas por perceber que não está feliz com os rumos de sua vida profissional, amorosa ou religiosa, por exemplo. Por não se sentir entusiasmado com atividades que até ontem eram prazerosas ou até mesmo após assistir um filme ou ler um livro.

Qualquer coisa pode ser um estopim para desencadear reflexões e a necessidade de metamorfose. Uso essa palavra propositalmente, porque penso muito que é exatamente como a lagarta. A gente vem se arrastando, se sentindo pesado(a), feio(a), até sem ânimo para prosseguir, mas podemos nos fechar em nossos casulos emocionais, ficar um tempo refletindo, planejando alterações e, de repente, quando nem mesmo nós esperávamos, rompemos aquela casca e saímos prontos(as) para alçar novos voos.

Os pacientes que se veem diante de um diagnóstico grave muitas vezes fazem isso. Se fecham, choram sua dor, a perda da ilusão da saúde perfeita para sempre, juntam seus pedaços e podem recomeçar diferentes, com novos valores, novas propostas de vida, novas rotas a desbravar.

Esses costumam reagir muito melhor ao tratamento e muitas vezes conseguir a cura, porque a doença foi como um aviso de que essa mudança era necessária. Quem se fecha aos sinais do corpo e da vida tem mais dificuldade em fazer mudanças e pode até sucumbir diante de uma situação que nem era tão grave.

Essa capacidade de recomeçar, de se reinventar, de construir uma nova história, tem a ver com a resiliência, mas isso é assunto para outro texto.

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