Esse termo foi adotado da física e significa a capacidade de um determinado material voltar à sua forma original após ser deformado por uma força externa qualquer. Não existe um ser humano que nunca tenha sido ferido, atingido por uma força externa, que nem sempre é física como tombos, machucados e violência, mas pode ser maus tratos, luto, desprezo, injustiça, abandono e milhares de outros exemplos.

A diferença entre os resilientes e os que não o são, é que os primeiros “levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima”, como diz a música antiga. Hoje eu estava andando de bicicleta, calculei mal a altura de uma calçada e me estatelei no chão. Essa música veio imediatamente à minha cabeça e foi o que eu fiz. Não tinha poeira, mas sujeira do pneu e do chão, peguei minha garrafinha de água que tinha ido parar longe, me levantei com bicicleta e tudo e continuei o meu caminho por mais 10km mais ou menos. Estou dolorida, é verdade, mas nada que vá me impedir de pedalar amanhã.

Nem sempre as forças que nos atingem são tão suaves como o meu tombo de bicicleta. Às vezes se assemelham mais a um furacão de 200km/h. Mas não é por serem graves que não possamos nos levantar e continuar a jornada, até melhores do que éramos antes, pois até a adversidade pode servir de alavanca para nos fortalecer.

Fatores que ajudam muito são: a tendência ao otimismo, ter uma boa autoestima, criatividade desenvolvida e possuir uma boa rede de apoio, ou seja, pessoas com quem se pode contar, pois sem afeto tudo é muito mais difícil. Outro fator que é de grande auxílio é compartilhar, falar de sua dor. De preferência para um profissional, um psicólogo, mas também pode ser para um líder religioso ou um amigo mais sábio e experiente. Nem sempre é fácil, até porque diante de um grande trauma como um desabamento ou um assalto a memória pode ficar meio vacilante, mas com o passar do tempo, com o exercício da fala, a pessoa pode ir reconstruindo racionalmente o fato, compreendendo-o melhor, dando tempo para que o evento seja “digerido” emocionalmente e, finalmente, poder extrair lições e aprendizados dele. Essa capacidade de superação é a resiliência.

Não posso dizer que seja um processo fácil e indolor o de falar sobre o assunto até que ele esteja digerido, ao contrário, dói e incomoda muito, mas é essencial. Passar por cima, fazendo de conta que nada aconteceu, pode até parecer o melhor a ser feito, mas impede que a pessoa se aproprie de si mesma, suas capacidades, sua história e, no futuro, pode desencadear sintomas mais ou menos graves, pois o problema continua lá, como uma pedrinha no sapato. Mesmo que a gente ignore, ela acaba fazendo uma bolha.

E se apropriar do que passou, dos instrumentos utilizados para a superação, das pessoas com quem pôde contar, é fundamental para que se possa superar um outro obstáculo, que inevitavelmente virá. Digo que é inevitável, porque ninguém passa pela vida sem dificuldades a serem superadas, a cada dia, a cada época da vida. Aprender a lidar com elas da melhor forma é imprescindível.

Me vem à lembrança uma paciente que estava imobilizada em uma situação de dificuldade no trabalho, se achava sem forças para lutar, dizia que nunca tinha apoio de ninguém em suas empreitadas e só via o fracasso. Me recordei que há anos atrás ela tinha passado por um problema de saúde e uma vizinha que até então era uma pessoa distante, a tinha apoiado muito, ficando com ela no hospital, levando comida depois que ela voltou pra casa, enfim, dando um suporte fundamental para ela se recuperar. Eu trouxe a questão: lembra da fulana, sua vizinha, como ela agiu na sua doença? E ela, como que levou um choque, admitindo que havia sido uma grande amiga, cuidado dela, dado apoio. E ela mesma concluiu: Então nem sou tão sozinha e abandonada, né? Sempre pode ter alguém com quem eu possa contar… Enfim, quando a gente se apropria do que passou, se lembra das vitórias, fica mais fácil tanto buscar os apoios que necessitamos hoje quanto acreditar que se houve vitórias em outras situações, não tem porque não haver nessa também.

E por fim quero falar da importância da espiritualidade. Pessoas que tem o costume de orar, de se conectar com uma dimensão que transcende o mundo material, tendem a ser mais resilientes. A oração em si já é muito benéfica, até pela energia boa que emana, mas frequentar cultos religiosos, participar de grupos de oração, ter o hábito de ler textos espiritualistas edificantes e crer em algo superior a cada indivíduo, faz com que a confiança e o otimismo sejam fortalecidos.

A resiliência é uma capacidade fundamental para a felicidade e está ao alcance de qualquer pessoa. Não é um dom distribuído a poucos escolhidos. E também pode ser aprendida, exercitada. Se você não conseguir fazer sozinho(a), busque a ajuda de um psicoterapeuta, leia livros sobre o assunto, assista filmes nesse sentido. E aqui eu aproveito para indicar dois filmes: “A vida é bela” e “Preciosa”.

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